A morte nas fronteiras

Os dados do ACNUR indicam um aumento das baixas nas duas rotas migratórias mais perigosas. A análise do missionário scalabriniano padre Alfredo Gonçalves

Dados da ACNUR/ONU indicam que vem aumentando consideravelmente o número de mortos nas duas rotas mais perigosas dos fluxos migratórios: por um lado, as águas do Mediterrâneo e, por outro, as fronteiras que ligam os países sul-americanos entre si e destes com o sonho do eldorado norte-americano.

Até agora, somente neste ano de 2019, cerca de 800 pessoas se afogaram na travessia do Mediterrâneo, enquanto nos complexos fronteiriços do continente americano o número de mortos gira em torno de 500. Neste último caso, a fuga em massa da Venezuela vem contribuindo para que a quantidade de vítimas fatais nas rotas das Américas se aproxime da rota entre África e Europa.

Historicamente, a rota do Mediterrâneo em direção à Europa, utilizada pelos migrantes do continente africano, do Oriente Médio e até de alguns países asiáticos, tem sido a mais perigosa e letal. Nos últimos anos, porém, aumentam cada vez mais as mortes no mapa da mobilidade humana que cobre de maneira especial a migração de venezuelanos e centro-americanos rumo aos Estados Unidos. Por outro lado, ainda de acordo com a ONU, tanto em nível interno de cada país quanto em nível externo, atualmente estima-se em 70,6 milhões o número de pessoas que se encontram na condição de “desplazados” (deslocados).

Um aperto em várias frentes

Dois fatores em especial têm contribuído para a maior vulnerabilidade dos migrantes em fuga. Primeiro, o fechamento dos portos de Malta e da Itália, em particular, e dos portos europeus, em geral, para as embarcações que, partindo da Líbia, tentam alcançar o sul da Europa. As naves da ONG Sea-Eye e a Open Arms, por exemplo, com centenas de migrantes a bordo, permaneceram vários dias à deriva nas águas do Mediterrâneo, enquanto a União Europeia discutia um possível acordo para um desembarque compartilhado.

Em segundo lugar, o presidente Donald Trump vem provocando um duplo endurecimento na legislação migratória dos USA, seja nos acordos com ao países centro-americanos, no sentido de dificultar a passagem dos migrantes rumo ao norte; seja ao acelerar o famigerado processo de deportação que tem dividido perversamente os pais “indocumentados” dos filhos nascidos em território estadunidense.

Uma onda de ódio crescente

Em outras palavras, tanto na União Europeia quanto nos Estados Unidos, a política migratória em geral sofre restrições em cadeia. Num contexto mais amplo, verificamos uma onda de ódio e discriminação racial, às vezes com tons de supremacismo, perpetrada por governos de extrema direita e de orientação nacional populista, tais como na Áustria, Dinamarca, Inglaterra, Itália, Hungria, USA, entre outros – isso para não falar do Brasil, cujo número de estrangeiros é mínimo em relação à população do país. O mais grave é que figuras como Trump, Salvini, Le Pen, Viktor Orbán (novamente, sem falar de Bolsonaro) não passam de porta-vozes de fatias significativas da população. O que significa que são, ao mesmo tempo, causa e efeito da intolerância e do rechaço generalizado aos que chegam de fora. A sociedade se fecha ao outro, ao diferente, ao estranho. Vale lembrar que todos os nomes citados, e seria fácil acrescentar outros, receberam votação expressiva utilizado um discurso eleitoral anti-migratório.

Combate à exploração

Ao aprofundar-se a longa crise da economia globalizada, agora acompanhada da guerra-fria comercial, os migrantes se encontram no olho do furacão de ventos contrários. Na aparência, representam uma ameaça constante ao status quo, causando medo e ameaça na população estabelecida de cada país. Daí serem apresentados, não raro, como novo “bode expiatório” para toda e qualquer desordem social e política.

Como categoria mais frágil e vulnerável, sofrem de imediato as consequências da crise. Os candidatos, por sua vez, de olho na conquista ou manutenção do poder, sabem como manipular e instrumentalizar esse medo e essa ameaça, no sentido de faturar votos nas urnas. Prova mais ilustrativa disso é o uso e abuso de Trump em vista das eleições de 2020 nos Estados Unidos. Resta a pergunta: como navegar na contramão armados com os 4 verbos do Papa Francisco e com o Global Compact for migration?

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs